Mostrar mensagens com a etiqueta Gilka Machado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gilka Machado. Mostrar todas as mensagens

21/01/2018

0 Saudade - Poema de Gilka Machado




De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?
 
 Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
 
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
 
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?


Gilka Machado




0 Reflexão - Poema de Gilka Machado




Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contacto,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

 
Em seu voo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

 
Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

 
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das coisas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


Gilka Machado



0 Olhando o Mar - Poema de Gilka Machado




Sempre que fito o mar
tenho a ilusão de achar-me diante
de um silêncio amplo, ondulante,
de um silêncio profundo,
onde vozes lutassem por gritar,
por lhe fugirem do invisível fundo.

Diante do mar eu fico triste,
nessa mudez de quem assiste
reproduções do próprio dissabor;
diante do mar eu sou um mar,
a outro de apor
e a se indeterminar.

O mar é sempre monotonia,
na calmaria
ou na tempestade.
Fujo de ti, ó mar que estrondas!
porque a tristeza que me invade
tem a continuidade
das tuas ondas...

Mas te amo, ó mar, porque minha alma e a tua
são bem iguais: ambas profundamente
sensíveis, e amplas, e espelhantes;
nelas o ambiente
atua
apenas superficialmente...

Calma de cismas, de êxtases, de sonhos,
desesperos medonhos,
ânsias de azul, de alturas...
- Longos ou rápidos instantes
em que me transfiguro, em que te transfiguras...
Nos nossos sentimentos sem represa,
nas nossas almas, quanta afinidade!
- Tu sentindo por toda a natureza!
- Eu sentindo por toda a humanidade!

Nos dias muito azuis, o meu olhar,
atento,
a descer e a se elevar,
supõe o mar um espreguiçamento
do céu e o céu um êxtase do mar.

Há nos ritmos da água
marinha uma poesia, a mais completa,
essa poesia universal da mágoa.

O mar é um cérebro em laboração,
um cérebro de poeta;
nas suas ondas, vêm e vão
pensamentos, de roldão.

O mar,
imperturbavelmente, a rolar, a rolar...
O mar... - Concluo sempre que metido
em sua profundeza e em sua vastidão:
- o mar é o corpo, é a objetivação
do espaço, do infinito.

Gilka Machado


Topo